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sábado, 18 de março de 2017

Os Trovadores do Campo no Radar



Maria Thereza Cavalheiro publica no jornal Radar de Apucarana, a coluna "Trovas", desde 1977, ou seja, por 40 anos. É a publicação trovística campeã absoluta de longevidade.
Nessa adição os homenageados são "Os Trovadores do Campo", dupla sertaneja
composta pelos trovadores Campos Sales e Pedro Ornellas.


segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Trovador e o que mais? José Valdez de Castro Moura

Presidente da União Brasileira de Trovadores, seção Pindamonhangaba.
Possui graduação em Medicina pela Universidade Federal do Maranhão (1974), Mestrado em Saúde Pública Materno Infantil pela Universidade de São Paulo (1992) e Doutorado em Saúde Pública pela Universidade de São Paulo (1996). Atualmente é Professor Doutor da Universidade de Taubaté. Professor Convidado em 2013 da Universidade Paris IV -Sorbonne .Tem experiência na área de Medicina, com ênfase em Adolescência, atuando principalmente nos seguintes temas: adolescência, pediatria, gravidez, adolescência e concurso literário.
Escritor e Poeta laureado em dezenas de Concursos Literários, pertence às Academias Pindamonhangabense de Letras,Taubateana de Letras,Limoeirense de Letras e Paulista de Jornalismo.
Ingressou na trova no ano 2000 e desde então tem atuado de forma dinâmica na produção e promoção da trova.
Coleciona muitas láureas e premiações por sua atuação tanto na medicina como na produção literária.
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Informações coletadas do Lattes em 10/01/2017
Mais informações: www.escavador.com


terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Antônio Roberto - Um poeta inesquecível!

Campos
“Não sou nascido aqui, planície amada,
mas é como aqui nascido fosse,
pois tenho a minha alma impregnada
da brisa que te beija na alvorada,
e do seu cheiro refrescante e doce.”

Nasceu na cidade de São Fidélis (RJ), em 31 de maio de 1945, e faleceu aos 20 de novembro de 2008, em Campos dos Goytacazes.
Filho de Anleifer Leite Fernandes e Djanira Carvalho. Primogênito de uma família de oito irmãos. Aprendeu a ler em casa com o pai. Aos sete anos entrou para escola no interior de São Fidélis, mas, como era adiantado em relação aos colegas de classe, foi transferido para Escola Barão de Macaúbas no Centro da mesma cidade. Cursou o ensino fundamental e médio em sua cidade natal. Após passar no vestibular para a Faculdade de Medicina, mudou-se para Campos. Não exerceu a medicina porque passou num concurso e assumiu a postura de bancário para ajudar na criação dos irmãos.
Poeta, trovador e escritor, Antônio Roberto foi membro da Academia Fidelense de Letras, da Academia Pedralva Letras e Artes, da Academia Campista de Letras e representante da União Brasileira de Trovadores (UBT) em Campos. Fundou a Academia Infantil de Letras de São Fidélis. Grande idealizador do Café Literário, em Campos. Figura cativa dos eventos da Fundação Municipal Trianon, como o projeto “Choro e Cia” e o “Grupo Boa Noite Amor”, brindou o público com seu tradicional intervalo poético. Exerceu diversas atividades públicas: foi diretor da Biblioteca Municipal de São Fidélis, da Biblioteca Municipal Nilo Peçanha e do Departamento de Literatura da Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima em Campos.

Obra:
'Poesia, doce Poesia' – 1978
'Substantivo abstrato' - 
'Uma semana de sonetos' – 1993
'Os pratos da vovó' – 2001
'Potoc Potoc' -
'A verve da saudade – Tributo a Antonio Roberto' (vários autores)  1ª ed. - 2009

'A verve da saudade – Tributo a Antonio Roberto' (vários autores)  2ª ed. – 2009


Seu mais famoso soneto, uma obra prima!

OS PRATOS DA VOVÓ

A minha avó guardava, com alegria,
muitos pratos, lindíssimos, de louça
que ganhou de presente, quando moça.
e que esperava usar – quem sabe? – um dia

Mas a vida passava tão insossa
e nada de importante acontecia
e ninguém pra jantar aparecia
que compensasse abrir o guarda-louça.

Vovó morreu. Dos pratos coloridos
que hoje estão quebrados e perdidos
ela jamais usou sequer um só...

Assim também meus sonhos, tão guardados,
terão, por nunca serem realizados,
o mesmo fim dos pratos de vovó.

(compilado do blog Poetas Campistas)
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Eu: Tive o privilégio de conhecer Antônio Roberto, em junho de 2007, quando convidou minha dupla, Campos Sales e Pedro Ornellas "Os Trovadores do Campo"

para se apresentar na festa de premiação do concurso poético que promovia, em Campos. Figura ímpar, amado por todos. Logo cedo, ele nos levou a visitar as rádios de Campos. Chegava de improviso, no meio da programação, todos o recebiam com alegria, ele nos apresentava com elogios por demais generosos. E todos abriam um espaço para registrar nossa presença e tocar uma faixa do nosso CD. Também nos levou a conhecer de cabo a rabo o inesquecível jornal Monitor Campista. Vale dizer que todos os dias o jornal estampava uma trova de Antônio Roberto, em destaque, no cabeçalho.
Através dele, conheci a fabulosa jornalista e escritora Patrícia Bueno. Ela fez reportagem de página inteira com a gente no jornal e a partir dali, nos tornamos grandes amigos.
Antônio Roberto, poeta amigo sempre será uma lembrança marcante em minha memória.


segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

A Trova no Pará

Texto de Antônio Juraci Siqueira


Para início de prosa, o que foi dito sobre a introdução da trova no Brasil aplica-se, também, no caso do Pará, ou seja: também é herança portuguesa, com certeza, que aqui ganhou cores e sotaques marajoaras e é encontrada fartamente nas manifestações populares, quer como letra de músicas folclóricas, quer como quadra solta usada nos desafios da “desfeiteira” ou no “jogo de versos”. Além disso muitos poetas paraenses a compuseram com mestria, entre estes podemos citar De Campos Ribeiro, Jaques Flores, Rodrigues Pinagé e Antonio Tavernard. Desse último, lembro-me desta bem ao seu estilo:
Sol doente, sol de Agosto,
morrendo como uma flor.
Eu também sou um sol-posto
no ocaso da minha dor.
Entre os intelectuais que difundiram da trova no Pará merece destaque o estudioso José Coutinho de Oliveira (1887 – 1965) por sua contribuição tanto no cultivo quanto na divulgação da trova através da imprensa. Folclorista e fundador da Comissão Paraense de Folclore, entidade que presidiu por vários anos, José Coutinho de Oliveira deixou, entre suas obras inéditas, “TROVAS E CANTIGAS”, coletânea de trovas populares colhidas no meio popular, além de haver publicado, por vários anos, no jornal A Província do Pará, as colunas: “Trovário da Saudade” e “Trovas Amazônicas” onde, ao lado de trovas de autores diversos e trovas populares anônimas, publicava composições de sua lavra, como esta, por exemplo:
Muita gente, ao longe, é tida
como um sol em céu escampo,
mas quando vista de perto,
não passa de um pirilampo.
Na revista “Voz de Nazaré” publicou, por algum tempo, “Trovas Evangélicas” tendo, ainda, colaborado com várias revistas e jornais de Belém e de outras localidades, além de manter correspondências com intelectuais da época, entre eles o grande folclorista Luiz da Câmara Cascudo e Luiz Otávio, fundador da União Brasileira de Trovadores. Faleceu em Belém no dia 6 de Junho de 1965, um ano antes da fundação da UBT.
Com a fundação da União Brasileira de Trovadores em 21 de Agosto de 1966, foram nomeados coordenadores regionais e delegados municipais em todo o Brasil, ficando o trovador Pedro Tupinambá como coordenador da região Norte e o poeta e cronista Georgenor Franco como delegado em Belém. Mais tarde as coordenadorias foram substituídas pelas assessorias, tendo o cearense Santiago Vasques Filho assumido a Assessoria do Norte-Nordeste e Pedro Tupinambá substituído Georgenor Franco na delegacia de Belém. Foram criadas, ainda, delegacias nos municípios de Alenquer e Santarém, sendo delegados, respectivamente, Antonio Aldo Arrais e Orlando Borba.
Em 1969, Pedro Tupinambá, acadêmico, folclorista e Coronel Médico da Aeronáutica, iniciou a publicação da coluna dominical “No Mundo da Trova”, em “A Província do Pará” mantendo-a, ininterruptamente, por 21 anos, prestando, com isso, inestimável serviço à trova e aos trovadores que, após a morte de José Coutinho de Oliveira, passaram a ter, novamen- te, um espaço para a divulgação da trova e informações sobre os concursos e jogos florais.
Em 1984, estando eu participando do encerramento dos VIII Jogos Florais de Fortaleza como um dos vencedores desse certame, conheci o assessor da UBT para o Norte-Nordeste, poeta Santiago Vasques Filho que após falar de seu projeto para a expansão da UBT no Norte e Nordeste, ofereceu-me a Delegacia de Belém, em substituição a Pedro Tupinambá, com a expressa missão de fundar a primeira seção da UBT no Norte do Brasil, proposta por mim recusada na mesma hora.
Vasques Filho, contudo, voltou a escrever-me sobre o assunto, argumentando que após a fundação da UBT-Belém, Pedro Tupinambá seria nomeado presidente de honra pelos serviços prestados à trova e aos trovadores. Após várias investidas, contando, inclusive, com a aprovação do presidente nacional da UBT, Carlos Guimarães e o apoio de vários trovadores, entre eles o presidente da UBT-Fortaleza, Fernando Câncio, acabei nomeado no dia 4 de Dezembro de 1985, fato que não foi bem absorvido por Pedro Tupinambá que em artigo assinado em sua coluna anuncia seu desligamento da UBT. Sem alternativas, assumi a missão a mim confiada e fundei, com o aval de 23 trovadores e amigos da trova, no dia 4 de Fevereiro de 1986, a União Brasileira de Trovadores – Seção de Municipal de Belém, sendo eleito presidente e reeleito por três mandatos consecutivos até Janeiro de 1993 quando a poeta e artista plástica Cláudia Cruz assumiu a presidência cumprindo o mandato de dois anos e passando o cargo para Alonso Rocha, membro da Academia Paraense de Letras e Príncipe dos Poetas Paraenses, que comandou os destinos da nossa entidade até seu falecimento ocorrido no dia 23 de fevereiro de 2011.
Alonso Rocha, emérito sonetista e trovador talentoso, já com vários prêmios nacionais em Concursos de Trovas e Jogos Florais, a exemplo de José Coutinho de Oliveira e Pedro Tupinambá, também manteve, por um certo tempo, uma coluna no jornal “A Província do Pará” denominada “Recanto dos Trovadores” onde divulgava a trova, os trovadores do Pará e de outros estados, além de manter os concursos nacionais de trovas da UBT-Belém, realizados anualmente.
(Os dados sobre José Coutinho de Oliveira foram fornecidos por sua filha, senhora Maria Madalena de Oliveira Rebelo)
PS.: Após a morte de Alonso Rocha, a trovadora Sarah Rodrigues assumiu a presidência da UBT-Belém mas, creio que por falta de tempo, não foi dado continuidade às reuniões nem aos concursos de trovas.

sábado, 11 de fevereiro de 2017

Sua Majestade, a Trova!

A Trova no Brasil
Não podemos afirmar que a trova chegou ao Brasil a bordo das caravelas de Cabral, mas que foram os portugueses que a trouxeram na bagagem no início da nossa colonização, não restam dúvidas. No início não passavam de simples repetições ou versões de quadras de além-mar. Com o correr do tempo, termos e temas tipicamente nossos foram sendo agregados às trovas e estas foram adquirindo feições próprias, não faltando composições em tupi-guarani. Mas, a exemplo do que ocorreu em todos os lugares onde floresceu, aqui a trova também esteve intimamente ligada às manifestações culturais de cunho popular, na forma de cantigas, desafios, adivinhas, etc. Desde a data do descobrimento até o início do século XX, além dos trovadores populares, muitos poetas de renome, eventualmente, a produziram. Entre estes podemos citar Gonçalves Dias, Casemiro de Abreu, Álvares de Azevedo, Castro Alves, Gregório de Matos entre outros. No início do século passado, influenciados por um movimento em torno da trova ( em Portugal é dita quadra popular ou quadrinha ), ocorrido na Universidade de Coimbra, quando estudantes compunham e cantavam trovas ao som do fado, estudantes brasileiros de Recife passaram a cultivar esse gênero com entusiasmo, sendo o “Descantes”, livro publicado em 1907, uma referência desse movimento. Entre os cinco autores do “Descantes”, todos estudantes de Direito, aparece o nome de Adelmar Tavares ( 1888 – 1963 ) que além de mais tarde ingressar na Academia Brasileira de Letras, foi eleito, em 1858, “rei dos trovadores e violeiros”. Nessa época a trova também era cultivada no sul do país por trovadores autênticos do porte de Catulo da Paixão Cearense, Belmiro Braga, Vicente de Carvalho e Martins Fontes. Com o advento da Semana de Arte Moderna de 1922 e sua ira contra os clássicos, as composições de versos fixos como a trova e o soneto foram atingidos em cheio. O que não impediu, contudo, que alguns modernistas, ainda que esporadicamente, produzissem trovas como estas, respectivamente, de Menotti Del Picchia e Mário de Andrade:
Saudade, perfume triste
de uma flor que não se vê.
Culto que ainda persiste
num crente que já não crê.
Eu peno todas as dores
com este amor que deus me deu.
Quem achou os seus amores,
a si mesmo se perdeu.
Na década de 30, em pleno domínio do Modernismo, dois trovadores autênticos continuaram produzindo trovas: Belmiro Braga, poeta mineiro de Juiz de Fora ( 1870 – 1937 ) e o pernambucano Adelmar Tavares, a quem coube a missão de conduzir o estandarte da trova até a década de 50 quando Luiz Otávio, nome literário do dentista carioca Gilson de Castro, (1916 – 1977 ) inicia campanha nacional para a publicação de uma coletânea reunindo duas mil trovas de mais de seiscentos trovadores de todo o Brasil. O resultado de todo esse trabalho veio à luz em “Meus Irmãos, os Trovadores”, lançado em 1956 com absoluto sucesso, chegando a encabeçar várias listas de livros mais vendidos, redobrando o interesse pela trova e constituindo-se num marco do mais genuíno movimento literário brasileiro. Movimento que ganhou força com a criação, dois anos mais tarde, do Grêmio Brasileiro de Trovadores – GBT, entidade presidida pelo cordelista alagoano Rodolfo Coelho Cavalcante ( 1917 - 1986 ) e que congregava, além de cordelistas e violeiros, trovadores literários. Com o fomento dos jogos florais, concursos de trovas e encontros de trovadores e violeiros a década de 60 revelou-se como a década de ouro do trovismo brasileiro, tempo em que a trova e seus cultores ganharam espaço destacado em todos os meios de comunicação da época, com programas radiofônicos, páginas e colunas em jornais de grande circulação, edição de inúmeros livros, boletins informativos, etc. Em 1966, a já desgastada convivência entre trovadores literários e trovadores populares ( cordelistas e cantadores ), chegou ao fim, resultando na fundação da União Brasileira de Trovadores – UBT, presidida por Luiz Otávio, agora congregando trovadores e amigos da trova e assumindo o comando dos concursos de trovas e jogos florais, muitos dos quais persistem até hoje.
Na década de 80, o paranaense Eno Teodoro Wanke ( 1929 – 2002 ), grande estudioso da trova e dissidente da UBT, lançou as bases do “Neotrovismo” , movimento que incentivava e coordenava a criação de “Clubes de Trovadores” em todo o Brasil, além da criação da FEBET – Federação Brasileira de Entidades Trovistas. Tal movimento, apesar do esforço do seu idealizador, não logrou o êxito almejado e hoje, após sua morte ocorrida em 2002, excetuando a permanência do Clube dos Trovadores Capixabas presidido pelo trovador Clério José Borges, praticamente desapareceu.
Atualmente, a União Brasileira de Trovadores, já sem o brilho de décadas passadas, padece do mesmo mal que atingiu todas as entidades culturais do país, reflexo de uma sociedade cada dia mais globalizada e individualista. Apesar disso, a UBT-Nacional, através de suas seções municipais e delegacias, continua realizando os concursos de trovas e jogos florais. Recentemente, com o surgimento da Internet, a trova tem dado sinais de recuperação através de Blogs, Sítios e Comunidades de trovadores, uma poderosa ferramenta dos nossos dias para a produção e divulgação desse gênero tão antigo quanto popular e cativante.
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( Do livro: A Trova no Brasil, no Pará e no Folclore)

sábado, 6 de dezembro de 2014

A Lua em Trovas

Eterna musa dos poetas, ela está sempre presente em seus versos, provocando, com seu fascínio, um impulso irresistível de expressar sentimentos profundos que vão da depressão ao êxtase.
Não conheço poeta que não haja se rendido aos seus encantos.
Não conheço poeta que, olhando para ela, consiga enxergar apenas um astro inanimado...
Não conheço poeta que não tenha com ela um caso de amor.
Quem pode explicar a magia da lua e a influência que ela exerce no estro de um poeta apaixonado?
E por que explicar? Melhor se deleitar com as joias poéticas que ela inspira.
Busquemos pois vivenciar as emoções do poeta ao compor versos primorosos, inspirados por sua musa preferida.

Muitos poetas tentaram definir a lua, ou estabelecer semelhanças com objetos do seu desejo. Senão, vejamos:
Domingos Freire Cardoso, o grande poeta português, compara a lua à mulher ideal que se deseja e não se pode ter:

A lua, eterna viajante
dos espaços siderais,
é mulher, bela e distante,
que não se alcança jamais.

Essa imagem da lua-mulher também inspirou Licínio Antônio de Andrade, de Juiz de Fora MG, nesta linda trova:

Qual bela noiva charmosa
tendo estrelas como véu,
desfila a lua garbosa
na passarela do céu.

Carlos Pinto, de Santa Luzia MG, lamentou a semelhança da mulher esquiva com a lua em sua fase mais esplendorosa:

Minha alma não mais anseia
por tuas suavidades, 
Lua branca - lua cheia - 
Lua cheia - de saudades!

Se a lua tem uma sósia humana, essa sem dúvida é a Maria Lua. Ninguém se identifica tanto com ela quanto a poetisa de Nova Friburgo RJ, que assim define sua equivalente celeste:

Senhora de mil caminhos
e das saudades secretas,
a Lua é o Sol dos sozinhos...
dos amantes... dos poetas...

Há tanta comunhão entre trova e lua, que se a lua fosse um poema com certeza seria uma trova.
SERIA? Não! Na visão do grande J. G. de Araújo Jorge, do Rio de Janeiro, a lua É uma trova:

Tudo é trova: a flor, a onda,
a nuvem que passa ao léu...
E a lua... trova redonda
que a noite canta no céu...

No aconchego dos amantes, o enlevo que os envolve irradia tanta luz que, se comparado à mudança de fases da lua, há que se acelerar o processo, porque o amor tem pressa. 
Foi o que Neide Rocha Portugal, de Bandeirantes PR, sentiu, ao se expressar nesta trova:

O rancho se faz gigante,
pois quando o amor o incendeia,
o nosso quarto, minguante,
tem clarão de lua cheia!

Para alguns, a afinidade é tanta que chegam a pensar que podem mesmo tocar a lua.
Vanda Fagundes Queiroz, de Curitiba, bem que tentou:

Olhando do meu terraço
o céu que ilumina a rua,
com enlevo um gesto eu faço,
e quase que abraço a lua!

Outros acreditam ter privilégios especiais. Puxando a brasa pra sua sardinha, Edmar Japiassú Maia, do Rio de Janeiro, vangloriou-se neste belo jogo de palavras:

Talvez porque a noite esconda
sombras de amor...é que a Lua
põe mais luz em sua ronda,
quando ronda a minha rua!

Assim como Edmar, todos os poetas têm ou tiveram a sua rua... E que criança não teve um dia a certeza de que a lua a estava seguindo, ao caminhar pela rua? Pedro Ornellas, de São Paulo, descreve essa sensação de grandeza criada pelas fantasias de menino:

Volto e vejo a mesma lua,
na mesma rua, lembrando:
eu correndo pela rua...
e a lua me acompanhando!

O papel da lua, como testemunha que, lá do alto, tudo vê é muitas vezes lembrado pelos poetas, que quase chegam a culpá-la de ser indiferente aos seus infortúnios. Campos Sales, de São Paulo, lamenta:

Ah, lua cheia, vadia,
que, noite adentro, clareia
minha vida tão vazia
mas de saudades tão cheia!

Wanda de Paula Mourthé, a Wandinha, de Belo Horizonte, tem uma queixa bem parecida:

Olho a rua... a noite avança,
tudo adormece ao luar...
Dorme até minha esperança,
que cansou de te esperar!

A mera presença da lua é o bastante para despertar em Rita Mourão, de Ribeirão Preto SP, sentimentos assim:

Quando esta lua indiscreta,
me traz lembranças sem fim
eu choro o velho poeta
que morreu dentro de mim.

O brilho da lua é de tal forma deslumbrante que, no sertão, se sobrepõe a qualquer outra fonte de luz.
Estaria ela se exibindo, envaidecida, ao roubar o brilho de um pequeno inseto luminoso?
Ademar Macedo, do RN, se não disse, ao menos sugeriu isso na trova:

A Lua tão linda e terna,
no meu sertão, por ciúme,
acende a sua lanterna
e apaga a do vaga-lume.

A lua já foi até mesmo apontada como mau exemplo por não ter luz própria, e por ninguém menos que o magnífico trovador João Freire Filho, do Rio de Janeiro:

Que importa não seja sua
a luz de que a Lua é cheia?!...
Quanta gente, igual à Lua,
só vive da luz alheia?!...

Mas imediatamente, João Freire reverte o quadro, ao fazer a ressalva:

A lua, que nos clareia,
é diferente de quem,
recebendo luz alheia,
não ilumina ninguém!

A lua distribui a luz que recebe. Assim fica resgatado seu caráter generoso. Nessa linha, Roberto Resende Vilela, de Pouso Alegre MG, destaca a generosidade da fonte da luz que a lua irradia:

Generoso, o sol se presta
de instrumento de partilha,
quando para a lua empresta
toda a luz com que ela brilha.

Assim como a lua, usada pelo Grandioso Criador como espelho para refletir a luz do sol em nosso benefício, e como um espelho d’água que reflete a lua para nosso deleite, podemos nos alegrar de ser instrumentos para o bem.  Assim se sente Pedro Ornellas:

Se ajudo alguém na tormenta
é o poder de Deus que atua
e faz que a poça barrenta
reflita o brilho da lua!

Com sua mania de humanizar a lua, o poeta chega a sugerir que ela tem algo de ruim a esconder. Hegel Pontes, de Minas Gerais, usa esse suposto lado negro, para aconselhar o filho:

Não julgues pelo semblante
A honra alheia, meu filho:
- Na lua, a face brilhante
Oculta a face sem brilho.

Mas há quem prefira se concentrar em atitudes gentís. O poeta enxerga coisas ocultas aos olhos dos meros mortais. Aurolina de Castro, do Maranhão, acredita que a lua controla com cuidado a intensidade de seus raios.
E por que faz isso? Ela explica:

O brilho da lua cheia
cai suave nos caminhos,
dando a impressão que receia
acordar os passarinhos.

E se a lua tem sentimentos, teria também bom humor? Vasques Filho, do Piauí, acha que sim:

Pelo espaço, onde flutua,
nas noites claras de estio,
a lua ri de outra lua
que faz caretas no rio.

Não há como negar a influência da lua na disposição de espírito dos humanos. A simples contemplação de sua beleza pode confortar a alma dos desvalidos, como sugere Campos Sales:

Um céu de estrelas se acende
e o menino espia a lua,
do seu berço que se estende
de ponta a ponta da rua!

Para apreciar melhor algo belo, você precisa olhar de perto, não é assim? Nem sempre!
Nei Garcez, de Curitiba, faz essa interessante observação:

O astronauta que flutua
muito tem a lamentar:
quanto mais perto da lua
mais distante do luar.

Maria Lua concorda que, em se tratando do luar, ver de longe é melhor, ao relembrar coisas boas do passado:

Da tapera, me encantava
o luar, visto à distância...
E o riacho murmurava
cantigas da minha infância!

Assim é o poeta em sua relação encantada com a lua. Poeta, cujo papel foi cantado por Humberto Del Maestro:

Poeta tem as mãos cheias,
carrega o sol, leva a lua;
arrasta mágoas alheias
e ri quando a dor é sua.

Finalmente, há imagens tão sublimes estampadas em trovas, que se comentadas fossem correr-se-ia o risco de ofuscar o seu brilho. Melhor ler e se encantar com trovas desse quilate:

Na lua existe um moinho
que leva a noite a girar,
moendo o trigo branquinho
com que Deus faz o luar!...
(Archimino Lapagesse  - Florianópolis SC)

Quando a jangada flutua
sobre as águas, ao luar,
é uma lágrima da lua
nos olhos verdes do mar.
(José Lucas de Barros – Natal RN)

Tão linda era a luz, na rua,
que um ébrio tentou bebê-la...
mas tropeçou numa lua
e caiu sobre uma estrela!
(José Ouverney – Pindamonhangaba SP)

É inverno... choveu na mata...
e a lua, deusa sem fama,
penteia as tranças de prata
pelos espelhos de lama.
(Manoel Cavalcante - Pau dos Ferros – RN)

Lembro o sertão, seu encanto,
a luz cheia, tão minha...
Sem ter nada tinha tanto
naquele nada que eu tinha!
(Campos Sales – São Paulo)

Encerrando, destaco como símbolo do encanto da lua sobre o poeta essa trova que me encanta:

Em meus sonhos de criança,
desejei pescar a lua
e pus anzóis de esperança
nas poças d’água da rua!

(Delcy Canalles – Porto Alegre RS)

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Texto do Poeta Professor Pedro Mello

Chego à presidência da UBT São Paulo graças à indicação de Domitilla Borges Beltrame e, conquanto essa trajetória, tenho recebido diversas manifestações de apoio, às quais sinceramente agradeço.

          São Paulo é uma das primeiras cidades onde o Trovismo fincou bandeira, na década de 60, ainda na época do extinto GBT (Grêmio Brasileiro de Trovadores), quando Orlando Brito e Antonieta Borges Alves (os primeiros trovadores da cidade) ajudaram a promover encontros na Av. Rangel Pestana, no Brás.

          Maria Thereza Cavalheiro foi a primeira delegada e presidente da Seção de São Paulo, de 1966 até 1976. (Neste respeito, quero agradecer e enaltecer muitíssimo o trabalho do trovador Pedro Ornellas, que resgatou em anos recentes a figura de Maria Thereza, injustamente esquecida pelo nosso movimento até então. Obrigado, Pedro, pois você prestou um serviço inestimável ao Trovismo!) Depois de Maria Thereza, a Grande Dama da Trova Paulista, vieram Izo Goldman, Thalma Tavares, Domitilla Borges Beltrame e Selma Patti Spinelli, presidentes notáveis e realizadores.

          Agora estou aqui, neste curto mandato de apenas um ano, com a missão de manter acesa a chama que meus antecessores não deixaram apagar. Tenho vontade de contribuir para tornar nossas reuniões mais acolhedoras e menos cerimoniosas, com mais rodadas de trovas entremeadas de música, organizar uma antologia dos trovadores da cidade de São Paulo, promover duas confraternizações (em julho e em dezembro) e, em nosso concurso anual, comemorar efemérides que marcam 2014.

          Não terei tempo de realizar coisas notáveis como fizeram meus antecessores, mas fico honrado em ocupar uma cadeira que já teve pessoas de tamanha envergadura. Agradeço pelo carinho dos que torcem por mim e é por isso que o Trovismo constitui um movimento apaixonante e sedutor: os amigos são verdadeiros irmãos!
 
Pedro Mello – presidente interino da UBT São Paulo

terça-feira, 16 de julho de 2013

Viagem no trem da trova

No saudosismo dos poetas, a inspiração se alimenta de coisas que o progresso tornou obsoletas, mas que conservam um toque romântico, mais pelas lembranças que evocam do que pela funcionabilidade, razão pela qual são supervalorizadas nos versos. Isso explica o fascínio pela estrada de chão, pelo carro de bois, pelo lampião de gás... e pelo trem de ferro, objeto de nossa atenção nesse tour pelos intrincados labirintos da inspiração poética.
Você é nosso convidado... Pegue seu bilhete, procure sua poltrona e aprecie a viagem!

O trem de ferro fez parte da infância de muitos poetas grisalhos. Por isso infância e trem andam de mãos dadas na fantástica trova de Cipriano Ferreira Gomes:

Pelos trilhos da distância,
no trem das minhas tristezas,
somente o vagão da Infância
tem janelinhas acesas!

Se perder o trem é uma tragédia para uns, para outros não é tão grave assim. Para Alberto Paco, nem tudo está perdido. Ele explica:

Deixa que o trem vá embora.
Não é preciso correr!
Sempre haverá outra hora
de outro trem aparecer.

Também Dáguima Verônica encontra semelhança positiva entre a corrida do trem e a corrida da vida:

Não desista ante empecilhos
que o segredo é acreditar;
quem corre a favor dos trilhos,
cedo ou tarde há de chegar!

Dorothy Jansson Moretti, num momento saudosista, lamenta a ausência do gigante de ferro:

Nunca mais o trem passou,
mas ainda lhe ouço o apito;
o silêncio eternizou
a saudade do seu grito.

Para alguns poetas o trem ganhou status de vilão, por levar embora o ser amado. Hermoclydes Siqueira Franco, descreve de forma sublime a vívida a imagem do trem se afastando:

Na distância, ao teu aceno,
quanta tristeza me invade...
O trem ficando pequeno
e em mim crescendo a saudade!

Almas gêmeas separadas, despedidas... e o trem, cumprindo seu papel de cúmplice involuntário... Às vezes ao levar a parte que parte leva tembém parte de quem fica.
Pelo menos foi como se sentiu Edmar Japiassú Maia:

Partiste e, num desatino,
teimando em partir, também,
meu coração, clandestino,
viajou no mesmo trem...

O trem chega e parte. Chegada lembra alegria, partida lembra tristeza. Tristeza marca mais do que alegria. Por isso o poeta fala mais de partida do que de chegada. O apito é simplesmente o sinal de que o trem vai partir, mas para o poeta é muito mais do que isto.
O apito machuca, conforme expressa essa trova do magnífico trovador Joao Freire Filho:

É talvez o último abraço...
vais partir... apita o trem...
e o apito cortando o espaço
corta minha alma também!

Num momento de perda, a solidariedade traz conforto, mesmo que seja apenas imaginária, como esta percebida por Pedro Ornellas:

O trem partindo... um aceno...
e ao retornar pela estrada,
vi lágrimas de sereno
nos olhos da madrugada!

A  dor da partida é amenizada pela esperança do regresso. Quando esse não se concretiza, há quem prefira iludir-se, justificando o desencontro, como faz Pedro Mello:

Na estação do meu anseio,
nos perdemos de nós dois...
- Não foi o trem que não veio:
fui eu que cheguei depois...!

Mas há quem vá mais longe, e para esconder do mundo a dor do abandono, finge o que não vê, como nessa magistral trova do grande poeta Octávio Venturelli, fechando com chave de ouro nossa breve mas intensa viagem pelo mundo poético, a bordo do trem da trova:

Na velha estação de trem,
que a solidão dominava,
eu acenei a ninguém...
fingindo que alguém chegava...

O trem não para. Outros passageiros podem embarcar e ensejar novas jornadas pelos trilhos da trova. Quem sabe novos encontros. Oxalá estejamos juntos. Espero por vocês! 
 (texto de Pedro Ornellas)



sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Trovador, e o que mais? Diamantino Ferreira


Mora em Campos dos Goytacazes RJ. Além de outros cargos na área da justiça, foi Promotor de Justiça durante muitos anos na comarca de Barra Mansa. Hoje, aposentado, aos 86 anos, dedica-se à poesia, marcando presença nos eventos literários. Além de trovas, escreve poemas, crônicas, contos... 
Muito bem humorado, ao mesmo tempo não costuma suavizar quando denuncia falcatruas dos aproveitadores do sistema. Tornou-se bem conhecido nos meios trovadorescos por algo mais do que seus escritos:
Diamantino gosta de presentear os amigos, com livros e CDs que custeia e envia pelo correio, pelo simples prazer de divulgar o trabalho de colegas e agradar a todos. Com isso granjeia o carinho e amizade de todos.
Particularmente, tive o privilégio de conhecê-lo, quando fui com minha dupla sertaneja fazer apresentação num encontro literário em Campos, há alguns anos, a convite do saudoso amigo Antônio Roberto. Desde então, tenho sido um dos beneficiários de sua generosidade, sendo que já me encomendou mais de 200 CDs para distribuição.
Graças ao seu apoio, acabo de participar da "X Antologia Internacional Palavras no 3º Milênio". Ele cuidou pessoalmente de todas a providências para que eu participasse.
Diamantino Ferreira, um benfeitor da arte, merece nosso aplauso!
 
Trovas do Diamantino:

Na casa de quem escreve
há sempre papel no chão:
não perde tempo quem deve
segurar a inspiração!

Lua, que vagas serena
na amplidão do azul deleste,
traz consolo à minha pena,
leva a dor que me trouxeste!

Na casa de quem escreve
há sempre papel no chão:
não perde tempo quem deve
segurar a inspiração!

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Trovador - e o que mais? Ester Figueiredo

Muitos trovadores exercem atividades que merecem ser conhecidas, apreciadas e divulgadas, quer sejam outros talentos artísticos ou de outra natureza.
De maneira sucinta vamos dar a conhecer essas outras facetas de nossos trovadores.
Começamos com Ester Figueiredo, de Resende RJ, que ora recebe homenagem por seu trabalho altruísta como Conselheira Tutelar, e na defesa dos direitos da criança.

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

TroVariedades 100

Parabéns à amiga Divenei Boseli, a Diva do Soneto, por sua premiação merecida no concurso Bienal Interno, promovido pela UBT São Paulo, categoria Soneto.  Eis o belíssimo soneto da Divenei:



CARRO DE BOIS

Eu sinto a mansidão de um boi de carro
e meu carro de bois roda mansinho 
por mais íngreme e hostil seja o caminho: 
às vezes só de pedra, outras de barro.

Sabemos, eu e os bois, que há um passarinho 
cantando em cada arbusto em que me esbarro.
Do cheiro do gambá não me desgarro... 
Mas ouço, de uma fonte, o burburinho!

Eu sou carro de bois rodando agora 
caminhos que a saudade, mundo afora, 
abriu, redesenhando o meu sertão.

A mata com veredas tem meu jeito:
veredas são as veias no meu peito
bordando esse meu triste coração!

terça-feira, 10 de julho de 2012

Estou participando, parece ser uma iniciativa de grande importância.
Participe também, veja como fazer.

terça-feira, 3 de julho de 2012


Vanda Fagundes Queiroz, uma das melhores poetas da atualidade, acaba de lançar mais um livro, desta feita um livro de trovas com o título "Motivos e Matizes". Ela fez o lançamento durante os Jogos Florais de Curitiba, no mês passado.
Mesmo não tendo ainda a oportunidade de ter o livro, por conhecer bem o talento da Vanda, tenho certeza de que, a exemplo dos demais livros dela, esse é mais uma obra prima. Parabenizo minha boa amiga e desejo que seu livro seja valorizado como merece. Para quem desejar informações de como adquirir o livro, tomo a liberdade de passar o email dela:  vandafqueiroz@yahoo.com.br

sábado, 17 de março de 2012

Versos incomuns

Falava eu sobre trovas incomuns, criativas e até mesmo premeditadamente absurdas. Visitando o blog www.poesiaretro.blogspot.com, do amigo Rommel Werneck,
esbarrei-me com um soneto barroco que me chamou a atenção por enquadrar-se nessa categoria, versão soneto.
A autora obedeceu todas as regras exigidas para um bom soneto, menos uma, e é justamente nesse pecado que reside a grande virtude do soneto em pauta! 
 Ela usou o mesmo par de rimas de cabo a rabo! Ei-lo:

Ao Amado Ausente

Se apartada do corpo a doce vida,
domina em seu lugar a dura morte,
de que nasce tardar-me tanto a morte,
se ausente d’alma estou, que me dá vida?

Não quero sem Silvano já ter vida,
pois tudo sem Silvano é viva morte;
Já que se foi Silvano venha a morte,
perca-se por Silvano a minha vida.

Ah, suspirando ausente, se esta morte
não te obriga a querer vir dar-me vida,
como não ma vem dar-me a mesma morte?

Mas se n’alma consiste a própria vida,
bem sei que se me tarda tanto a morte,
que é porque sinta a morte de tal vida.

                                    Violante Montesino (1602-1693)

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Bendita Intertextualidade!!!

(texto de Pedro Mello)

Nos Estudos Linguísticos e Literários nós chamamos de intertextualidade ao processo criativo em que um autor toma outro texto como ponto de referência. Na realidade, a intertextualidade pode ocorrer também em outras artes, mas é na Literatura que alcança efeitos mais notáveis. Muitos brasileiros certamente se lembram das inúmeras paródias da "Canção do Exílio", de Gonçalves Dias. A paródia é uma criação intertextual, embora com finalidade humorística. Na Literatura de Língua Portuguesa, a intertextualidade é antiga: Camões, n'Os Lusíadas fez referências às epopeias clássicas e nos sonetos fez referências a temas explorados pelo seu contemporâneo Francesco Petrarca.

Recebi esta semana um belíssimo soneto de PEDRO ORNELLAS, mestre indiscutível do difícílimo verso hendecassílabo. Para quem não se recorda, o verso hendecassilábico, de 11 sílabas muito marcadas, possui um ritmo cantante devido à obrigatoriedade de ictos no segundo, quinto, oitavo e décimo primeiro verso (2-5-8-11). O decassílabo é mais "fácil" pela possibilidade de marcar o icto no sexto e décimo verso, com variantes (o decassílabo heroico, assim chamado por ser o verso da poesia épica, a poesia que canta os feitos de heróis) ou no quarto e oitavo verso (o decassílabo sáfico, cujo nome vem da poetisa grega Safo, que viveu no sétimo século aC). Para não ser excessivamente teórico, exemplifico:
"Che / guei... / che / gas / te... / vi / nhas / fa / ti / ga da [2-4-6-10]
e / tris / te... e / tris / te e / fa / ti / ga / do eu / vi / nha..." [2-4-8-10]
(Olavo Bilac, Nel mezzo del camin)
É possível deduzir, pelo exemplo acima, dos dois primeiros versos do soneto bilaquiano, que o decassílabo admite a alternância de ritmos em um mesmo poema. Essa alternância, porém, não existe no hendecassílabo, que possui o ritmo 2-5-8-11 do início ao fim do poema, o que o torna peculiarmente difícil de ser praticado. PEDRO ORNELLAS, porém, caprichoso e teimoso (!), não se deixa desanimar pelo pormenor técnico e há muitos anos vem praticando com inegável talento esse ritmo cantante. (Justiça seja feita: outros poetas também se dedicam ao hendecassílabo, mas é nos versos do Ornellas que a forma e o conteúdo se abraçam de modo encantador.)
POIS BEM... depois dessa longuíssima introdução, esclareço o motivo deste texto: Pedro Ornellas, com base em um soneto de nossa amiga DIVENEI BOSELI, compôs um hendecassílabo primoroso. O soneto de Divenei é um alexandrino com aquele gosto de amor que só ela consegue dar a um soneto. O soneto de Divenei, um lindo alexandrino (12 sílabas, também de técnica dificílima), chama-se TOQUE DE SILÊNCIO. Ei-lo aqui, na íntegra:

TOQUE DE SILÊNCIO

 Foi breve. Começou ao toque da alvorada,
quando este coração, herói de outra trincheira,
marchando de emoção entrou para a fileira
e logo improvisou a frágil barricada.

Foi lindo. Aconteceu da mística maneira
bem própria da paixão: manteve mascarada
a efêmera ilusão que envolve o tudo e o nada
e nem sequer doeu ver baixas na bandeira...

Foi tudo. Anoiteceu. Na última peleja,
derrota o antigo herói quem não o mereceu
e exibe o coração, sem honras, na bandeja...

Foi triste. Terminou... No peito que era meu,
aos toques do clarim, silente, não lateja:
sepulto no silêncio, o coração morreu!

Pois não é que Pedro Ornellas reparou num detalhe, que só mesmo um poeta de seu naipe seria capaz de notar? O Pedroca reparou nas frases iniciais de cada estrofe ("Foi breve", "foi lindo", "foi tudo", "foi triste") e percebeu que, juntas, formariam um verso de onze sílabas...!!! Só o Pedroca mesmo para ser tão observador... (Depois eu é que sou o "estruturalista"...) Tendo o mote em mãos, ele compôs um soneto inspirado no soneto da Divenei. Assim, acho que posso afirma que Divenei foi uma "Musa involuntária"... Ei aqui o soneto de Pedro Ornellas:

 FOI...

Foi breve... Foi lindo... Foi tudo... Foi triste...
História irreal que na areia se escreve,
esboço de lápis riscando de leve...
Foi breve, passou... mas a marca persiste.

Foi lindo... Foi tudo... Foi triste... Foi breve...
Romance que à mente em voltar sempre insiste;
Já tive, não tenho... Existiu, não existe.
Foi lindo, tal qual nenhum verso descreve!

Foi tudo... Foi triste... Foi breve... Foi lindo...
o amor que nem sei se foi mesmo ou me iludo
foi triste e no entanto alegrou minha estrada!

Foi triste... Foi breve... Foi lindo... Foi tudo...
e embora passado, já morto, já findo,
é tudo o que o sonho consegue de um nada.

De quebra, como se não bastasse por si só a dificuldade do ritmo, Pedroca ainda construiu um soneto paralelístico, repetindo os motivos no início de cada estrofe, mas alternando a ordem dos sintagmas, que se embaralham... mas não se misturam! Observe que cada elemento é colocado à frente dos demais e todos aparecem praticamente na mesma disposição original, apenas deslocados um à frente do outro. Se fizermos uma leitura, digamos "geométrica", comparando os versos horizontal e verticalmente, perceberemos uma perfeita simetria, como se estivéssemos diante de uma pintura renascentista...

BENDITA INTERTEXTUALIDADE!!! E eu, da minha parte, só posso dizer que me orgulho dos amigos que tenho, Divenei Boseli e Pedro Ornellas...! Como eu queria só uma gotinha do talento desses dois...!