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sábado, 6 de dezembro de 2014

A Lua em Trovas

Eterna musa dos poetas, ela está sempre presente em seus versos, provocando, com seu fascínio, um impulso irresistível de expressar sentimentos profundos que vão da depressão ao êxtase.
Não conheço poeta que não haja se rendido aos seus encantos.
Não conheço poeta que, olhando para ela, consiga enxergar apenas um astro inanimado...
Não conheço poeta que não tenha com ela um caso de amor.
Quem pode explicar a magia da lua e a influência que ela exerce no estro de um poeta apaixonado?
E por que explicar? Melhor se deleitar com as joias poéticas que ela inspira.
Busquemos pois vivenciar as emoções do poeta ao compor versos primorosos, inspirados por sua musa preferida.

Muitos poetas tentaram definir a lua, ou estabelecer semelhanças com objetos do seu desejo. Senão, vejamos:
Domingos Freire Cardoso, o grande poeta português, compara a lua à mulher ideal que se deseja e não se pode ter:

A lua, eterna viajante
dos espaços siderais,
é mulher, bela e distante,
que não se alcança jamais.

Essa imagem da lua-mulher também inspirou Licínio Antônio de Andrade, de Juiz de Fora MG, nesta linda trova:

Qual bela noiva charmosa
tendo estrelas como véu,
desfila a lua garbosa
na passarela do céu.

Carlos Pinto, de Santa Luzia MG, lamentou a semelhança da mulher esquiva com a lua em sua fase mais esplendorosa:

Minha alma não mais anseia
por tuas suavidades, 
Lua branca - lua cheia - 
Lua cheia - de saudades!

Se a lua tem uma sósia humana, essa sem dúvida é a Maria Lua. Ninguém se identifica tanto com ela quanto a poetisa de Nova Friburgo RJ, que assim define sua equivalente celeste:

Senhora de mil caminhos
e das saudades secretas,
a Lua é o Sol dos sozinhos...
dos amantes... dos poetas...

Há tanta comunhão entre trova e lua, que se a lua fosse um poema com certeza seria uma trova.
SERIA? Não! Na visão do grande J. G. de Araújo Jorge, do Rio de Janeiro, a lua É uma trova:

Tudo é trova: a flor, a onda,
a nuvem que passa ao léu...
E a lua... trova redonda
que a noite canta no céu...

No aconchego dos amantes, o enlevo que os envolve irradia tanta luz que, se comparado à mudança de fases da lua, há que se acelerar o processo, porque o amor tem pressa. 
Foi o que Neide Rocha Portugal, de Bandeirantes PR, sentiu, ao se expressar nesta trova:

O rancho se faz gigante,
pois quando o amor o incendeia,
o nosso quarto, minguante,
tem clarão de lua cheia!

Para alguns, a afinidade é tanta que chegam a pensar que podem mesmo tocar a lua.
Vanda Fagundes Queiroz, de Curitiba, bem que tentou:

Olhando do meu terraço
o céu que ilumina a rua,
com enlevo um gesto eu faço,
e quase que abraço a lua!

Outros acreditam ter privilégios especiais. Puxando a brasa pra sua sardinha, Edmar Japiassú Maia, do Rio de Janeiro, vangloriou-se neste belo jogo de palavras:

Talvez porque a noite esconda
sombras de amor...é que a Lua
põe mais luz em sua ronda,
quando ronda a minha rua!

Assim como Edmar, todos os poetas têm ou tiveram a sua rua... E que criança não teve um dia a certeza de que a lua a estava seguindo, ao caminhar pela rua? Pedro Ornellas, de São Paulo, descreve essa sensação de grandeza criada pelas fantasias de menino:

Volto e vejo a mesma lua,
na mesma rua, lembrando:
eu correndo pela rua...
e a lua me acompanhando!

O papel da lua, como testemunha que, lá do alto, tudo vê é muitas vezes lembrado pelos poetas, que quase chegam a culpá-la de ser indiferente aos seus infortúnios. Campos Sales, de São Paulo, lamenta:

Ah, lua cheia, vadia,
que, noite adentro, clareia
minha vida tão vazia
mas de saudades tão cheia!

Wanda de Paula Mourthé, a Wandinha, de Belo Horizonte, tem uma queixa bem parecida:

Olho a rua... a noite avança,
tudo adormece ao luar...
Dorme até minha esperança,
que cansou de te esperar!

A mera presença da lua é o bastante para despertar em Rita Mourão, de Ribeirão Preto SP, sentimentos assim:

Quando esta lua indiscreta,
me traz lembranças sem fim
eu choro o velho poeta
que morreu dentro de mim.

O brilho da lua é de tal forma deslumbrante que, no sertão, se sobrepõe a qualquer outra fonte de luz.
Estaria ela se exibindo, envaidecida, ao roubar o brilho de um pequeno inseto luminoso?
Ademar Macedo, do RN, se não disse, ao menos sugeriu isso na trova:

A Lua tão linda e terna,
no meu sertão, por ciúme,
acende a sua lanterna
e apaga a do vaga-lume.

A lua já foi até mesmo apontada como mau exemplo por não ter luz própria, e por ninguém menos que o magnífico trovador João Freire Filho, do Rio de Janeiro:

Que importa não seja sua
a luz de que a Lua é cheia?!...
Quanta gente, igual à Lua,
só vive da luz alheia?!...

Mas imediatamente, João Freire reverte o quadro, ao fazer a ressalva:

A lua, que nos clareia,
é diferente de quem,
recebendo luz alheia,
não ilumina ninguém!

A lua distribui a luz que recebe. Assim fica resgatado seu caráter generoso. Nessa linha, Roberto Resende Vilela, de Pouso Alegre MG, destaca a generosidade da fonte da luz que a lua irradia:

Generoso, o sol se presta
de instrumento de partilha,
quando para a lua empresta
toda a luz com que ela brilha.

Assim como a lua, usada pelo Grandioso Criador como espelho para refletir a luz do sol em nosso benefício, e como um espelho d’água que reflete a lua para nosso deleite, podemos nos alegrar de ser instrumentos para o bem.  Assim se sente Pedro Ornellas:

Se ajudo alguém na tormenta
é o poder de Deus que atua
e faz que a poça barrenta
reflita o brilho da lua!

Com sua mania de humanizar a lua, o poeta chega a sugerir que ela tem algo de ruim a esconder. Hegel Pontes, de Minas Gerais, usa esse suposto lado negro, para aconselhar o filho:

Não julgues pelo semblante
A honra alheia, meu filho:
- Na lua, a face brilhante
Oculta a face sem brilho.

Mas há quem prefira se concentrar em atitudes gentís. O poeta enxerga coisas ocultas aos olhos dos meros mortais. Aurolina de Castro, do Maranhão, acredita que a lua controla com cuidado a intensidade de seus raios.
E por que faz isso? Ela explica:

O brilho da lua cheia
cai suave nos caminhos,
dando a impressão que receia
acordar os passarinhos.

E se a lua tem sentimentos, teria também bom humor? Vasques Filho, do Piauí, acha que sim:

Pelo espaço, onde flutua,
nas noites claras de estio,
a lua ri de outra lua
que faz caretas no rio.

Não há como negar a influência da lua na disposição de espírito dos humanos. A simples contemplação de sua beleza pode confortar a alma dos desvalidos, como sugere Campos Sales:

Um céu de estrelas se acende
e o menino espia a lua,
do seu berço que se estende
de ponta a ponta da rua!

Para apreciar melhor algo belo, você precisa olhar de perto, não é assim? Nem sempre!
Nei Garcez, de Curitiba, faz essa interessante observação:

O astronauta que flutua
muito tem a lamentar:
quanto mais perto da lua
mais distante do luar.

Maria Lua concorda que, em se tratando do luar, ver de longe é melhor, ao relembrar coisas boas do passado:

Da tapera, me encantava
o luar, visto à distância...
E o riacho murmurava
cantigas da minha infância!

Assim é o poeta em sua relação encantada com a lua. Poeta, cujo papel foi cantado por Humberto Del Maestro:

Poeta tem as mãos cheias,
carrega o sol, leva a lua;
arrasta mágoas alheias
e ri quando a dor é sua.

Finalmente, há imagens tão sublimes estampadas em trovas, que se comentadas fossem correr-se-ia o risco de ofuscar o seu brilho. Melhor ler e se encantar com trovas desse quilate:

Na lua existe um moinho
que leva a noite a girar,
moendo o trigo branquinho
com que Deus faz o luar!...
(Archimino Lapagesse  - Florianópolis SC)

Quando a jangada flutua
sobre as águas, ao luar,
é uma lágrima da lua
nos olhos verdes do mar.
(José Lucas de Barros – Natal RN)

Tão linda era a luz, na rua,
que um ébrio tentou bebê-la...
mas tropeçou numa lua
e caiu sobre uma estrela!
(José Ouverney – Pindamonhangaba SP)

É inverno... choveu na mata...
e a lua, deusa sem fama,
penteia as tranças de prata
pelos espelhos de lama.
(Manoel Cavalcante - Pau dos Ferros – RN)

Lembro o sertão, seu encanto,
a luz cheia, tão minha...
Sem ter nada tinha tanto
naquele nada que eu tinha!
(Campos Sales – São Paulo)

Encerrando, destaco como símbolo do encanto da lua sobre o poeta essa trova que me encanta:

Em meus sonhos de criança,
desejei pescar a lua
e pus anzóis de esperança
nas poças d’água da rua!

(Delcy Canalles – Porto Alegre RS)

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Texto do Poeta Professor Pedro Mello

Chego à presidência da UBT São Paulo graças à indicação de Domitilla Borges Beltrame e, conquanto essa trajetória, tenho recebido diversas manifestações de apoio, às quais sinceramente agradeço.

          São Paulo é uma das primeiras cidades onde o Trovismo fincou bandeira, na década de 60, ainda na época do extinto GBT (Grêmio Brasileiro de Trovadores), quando Orlando Brito e Antonieta Borges Alves (os primeiros trovadores da cidade) ajudaram a promover encontros na Av. Rangel Pestana, no Brás.

          Maria Thereza Cavalheiro foi a primeira delegada e presidente da Seção de São Paulo, de 1966 até 1976. (Neste respeito, quero agradecer e enaltecer muitíssimo o trabalho do trovador Pedro Ornellas, que resgatou em anos recentes a figura de Maria Thereza, injustamente esquecida pelo nosso movimento até então. Obrigado, Pedro, pois você prestou um serviço inestimável ao Trovismo!) Depois de Maria Thereza, a Grande Dama da Trova Paulista, vieram Izo Goldman, Thalma Tavares, Domitilla Borges Beltrame e Selma Patti Spinelli, presidentes notáveis e realizadores.

          Agora estou aqui, neste curto mandato de apenas um ano, com a missão de manter acesa a chama que meus antecessores não deixaram apagar. Tenho vontade de contribuir para tornar nossas reuniões mais acolhedoras e menos cerimoniosas, com mais rodadas de trovas entremeadas de música, organizar uma antologia dos trovadores da cidade de São Paulo, promover duas confraternizações (em julho e em dezembro) e, em nosso concurso anual, comemorar efemérides que marcam 2014.

          Não terei tempo de realizar coisas notáveis como fizeram meus antecessores, mas fico honrado em ocupar uma cadeira que já teve pessoas de tamanha envergadura. Agradeço pelo carinho dos que torcem por mim e é por isso que o Trovismo constitui um movimento apaixonante e sedutor: os amigos são verdadeiros irmãos!
 
Pedro Mello – presidente interino da UBT São Paulo

terça-feira, 16 de julho de 2013

Viagem no trem da trova

No saudosismo dos poetas, a inspiração se alimenta de coisas que o progresso tornou obsoletas, mas que conservam um toque romântico, mais pelas lembranças que evocam do que pela funcionabilidade, razão pela qual são supervalorizadas nos versos. Isso explica o fascínio pela estrada de chão, pelo carro de bois, pelo lampião de gás... e pelo trem de ferro, objeto de nossa atenção nesse tour pelos intrincados labirintos da inspiração poética.
Você é nosso convidado... Pegue seu bilhete, procure sua poltrona e aprecie a viagem!

O trem de ferro fez parte da infância de muitos poetas grisalhos. Por isso infância e trem andam de mãos dadas na fantástica trova de Cipriano Ferreira Gomes:

Pelos trilhos da distância,
no trem das minhas tristezas,
somente o vagão da Infância
tem janelinhas acesas!

Se perder o trem é uma tragédia para uns, para outros não é tão grave assim. Para Alberto Paco, nem tudo está perdido. Ele explica:

Deixa que o trem vá embora.
Não é preciso correr!
Sempre haverá outra hora
de outro trem aparecer.

Também Dáguima Verônica encontra semelhança positiva entre a corrida do trem e a corrida da vida:

Não desista ante empecilhos
que o segredo é acreditar;
quem corre a favor dos trilhos,
cedo ou tarde há de chegar!

Dorothy Jansson Moretti, num momento saudosista, lamenta a ausência do gigante de ferro:

Nunca mais o trem passou,
mas ainda lhe ouço o apito;
o silêncio eternizou
a saudade do seu grito.

Para alguns poetas o trem ganhou status de vilão, por levar embora o ser amado. Hermoclydes Siqueira Franco, descreve de forma sublime a vívida a imagem do trem se afastando:

Na distância, ao teu aceno,
quanta tristeza me invade...
O trem ficando pequeno
e em mim crescendo a saudade!

Almas gêmeas separadas, despedidas... e o trem, cumprindo seu papel de cúmplice involuntário... Às vezes ao levar a parte que parte leva tembém parte de quem fica.
Pelo menos foi como se sentiu Edmar Japiassú Maia:

Partiste e, num desatino,
teimando em partir, também,
meu coração, clandestino,
viajou no mesmo trem...

O trem chega e parte. Chegada lembra alegria, partida lembra tristeza. Tristeza marca mais do que alegria. Por isso o poeta fala mais de partida do que de chegada. O apito é simplesmente o sinal de que o trem vai partir, mas para o poeta é muito mais do que isto.
O apito machuca, conforme expressa essa trova do magnífico trovador Joao Freire Filho:

É talvez o último abraço...
vais partir... apita o trem...
e o apito cortando o espaço
corta minha alma também!

Num momento de perda, a solidariedade traz conforto, mesmo que seja apenas imaginária, como esta percebida por Pedro Ornellas:

O trem partindo... um aceno...
e ao retornar pela estrada,
vi lágrimas de sereno
nos olhos da madrugada!

A  dor da partida é amenizada pela esperança do regresso. Quando esse não se concretiza, há quem prefira iludir-se, justificando o desencontro, como faz Pedro Mello:

Na estação do meu anseio,
nos perdemos de nós dois...
- Não foi o trem que não veio:
fui eu que cheguei depois...!

Mas há quem vá mais longe, e para esconder do mundo a dor do abandono, finge o que não vê, como nessa magistral trova do grande poeta Octávio Venturelli, fechando com chave de ouro nossa breve mas intensa viagem pelo mundo poético, a bordo do trem da trova:

Na velha estação de trem,
que a solidão dominava,
eu acenei a ninguém...
fingindo que alguém chegava...

O trem não para. Outros passageiros podem embarcar e ensejar novas jornadas pelos trilhos da trova. Quem sabe novos encontros. Oxalá estejamos juntos. Espero por vocês! 
 (texto de Pedro Ornellas)



sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Trovador, e o que mais? Diamantino Ferreira


Mora em Campos dos Goytacazes RJ. Além de outros cargos na área da justiça, foi Promotor de Justiça durante muitos anos na comarca de Barra Mansa. Hoje, aposentado, aos 86 anos, dedica-se à poesia, marcando presença nos eventos literários. Além de trovas, escreve poemas, crônicas, contos... 
Muito bem humorado, ao mesmo tempo não costuma suavizar quando denuncia falcatruas dos aproveitadores do sistema. Tornou-se bem conhecido nos meios trovadorescos por algo mais do que seus escritos:
Diamantino gosta de presentear os amigos, com livros e CDs que custeia e envia pelo correio, pelo simples prazer de divulgar o trabalho de colegas e agradar a todos. Com isso granjeia o carinho e amizade de todos.
Particularmente, tive o privilégio de conhecê-lo, quando fui com minha dupla sertaneja fazer apresentação num encontro literário em Campos, há alguns anos, a convite do saudoso amigo Antônio Roberto. Desde então, tenho sido um dos beneficiários de sua generosidade, sendo que já me encomendou mais de 200 CDs para distribuição.
Graças ao seu apoio, acabo de participar da "X Antologia Internacional Palavras no 3º Milênio". Ele cuidou pessoalmente de todas a providências para que eu participasse.
Diamantino Ferreira, um benfeitor da arte, merece nosso aplauso!
 
Trovas do Diamantino:

Na casa de quem escreve
há sempre papel no chão:
não perde tempo quem deve
segurar a inspiração!

Lua, que vagas serena
na amplidão do azul deleste,
traz consolo à minha pena,
leva a dor que me trouxeste!

Na casa de quem escreve
há sempre papel no chão:
não perde tempo quem deve
segurar a inspiração!

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Trovador - e o que mais? Ester Figueiredo

Muitos trovadores exercem atividades que merecem ser conhecidas, apreciadas e divulgadas, quer sejam outros talentos artísticos ou de outra natureza.
De maneira sucinta vamos dar a conhecer essas outras facetas de nossos trovadores.
Começamos com Ester Figueiredo, de Resende RJ, que ora recebe homenagem por seu trabalho altruísta como Conselheira Tutelar, e na defesa dos direitos da criança.

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

TroVariedades 100

Parabéns à amiga Divenei Boseli, a Diva do Soneto, por sua premiação merecida no concurso Bienal Interno, promovido pela UBT São Paulo, categoria Soneto.  Eis o belíssimo soneto da Divenei:



CARRO DE BOIS

Eu sinto a mansidão de um boi de carro
e meu carro de bois roda mansinho 
por mais íngreme e hostil seja o caminho: 
às vezes só de pedra, outras de barro.

Sabemos, eu e os bois, que há um passarinho 
cantando em cada arbusto em que me esbarro.
Do cheiro do gambá não me desgarro... 
Mas ouço, de uma fonte, o burburinho!

Eu sou carro de bois rodando agora 
caminhos que a saudade, mundo afora, 
abriu, redesenhando o meu sertão.

A mata com veredas tem meu jeito:
veredas são as veias no meu peito
bordando esse meu triste coração!

terça-feira, 10 de julho de 2012

Estou participando, parece ser uma iniciativa de grande importância.
Participe também, veja como fazer.

terça-feira, 3 de julho de 2012


Vanda Fagundes Queiroz, uma das melhores poetas da atualidade, acaba de lançar mais um livro, desta feita um livro de trovas com o título "Motivos e Matizes". Ela fez o lançamento durante os Jogos Florais de Curitiba, no mês passado.
Mesmo não tendo ainda a oportunidade de ter o livro, por conhecer bem o talento da Vanda, tenho certeza de que, a exemplo dos demais livros dela, esse é mais uma obra prima. Parabenizo minha boa amiga e desejo que seu livro seja valorizado como merece. Para quem desejar informações de como adquirir o livro, tomo a liberdade de passar o email dela:  vandafqueiroz@yahoo.com.br

sábado, 17 de março de 2012

Versos incomuns

Falava eu sobre trovas incomuns, criativas e até mesmo premeditadamente absurdas. Visitando o blog www.poesiaretro.blogspot.com, do amigo Rommel Werneck,
esbarrei-me com um soneto barroco que me chamou a atenção por enquadrar-se nessa categoria, versão soneto.
A autora obedeceu todas as regras exigidas para um bom soneto, menos uma, e é justamente nesse pecado que reside a grande virtude do soneto em pauta! 
 Ela usou o mesmo par de rimas de cabo a rabo! Ei-lo:

Ao Amado Ausente

Se apartada do corpo a doce vida,
domina em seu lugar a dura morte,
de que nasce tardar-me tanto a morte,
se ausente d’alma estou, que me dá vida?

Não quero sem Silvano já ter vida,
pois tudo sem Silvano é viva morte;
Já que se foi Silvano venha a morte,
perca-se por Silvano a minha vida.

Ah, suspirando ausente, se esta morte
não te obriga a querer vir dar-me vida,
como não ma vem dar-me a mesma morte?

Mas se n’alma consiste a própria vida,
bem sei que se me tarda tanto a morte,
que é porque sinta a morte de tal vida.

                                    Violante Montesino (1602-1693)

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Bendita Intertextualidade!!!

(texto de Pedro Mello)

Nos Estudos Linguísticos e Literários nós chamamos de intertextualidade ao processo criativo em que um autor toma outro texto como ponto de referência. Na realidade, a intertextualidade pode ocorrer também em outras artes, mas é na Literatura que alcança efeitos mais notáveis. Muitos brasileiros certamente se lembram das inúmeras paródias da "Canção do Exílio", de Gonçalves Dias. A paródia é uma criação intertextual, embora com finalidade humorística. Na Literatura de Língua Portuguesa, a intertextualidade é antiga: Camões, n'Os Lusíadas fez referências às epopeias clássicas e nos sonetos fez referências a temas explorados pelo seu contemporâneo Francesco Petrarca.

Recebi esta semana um belíssimo soneto de PEDRO ORNELLAS, mestre indiscutível do difícílimo verso hendecassílabo. Para quem não se recorda, o verso hendecassilábico, de 11 sílabas muito marcadas, possui um ritmo cantante devido à obrigatoriedade de ictos no segundo, quinto, oitavo e décimo primeiro verso (2-5-8-11). O decassílabo é mais "fácil" pela possibilidade de marcar o icto no sexto e décimo verso, com variantes (o decassílabo heroico, assim chamado por ser o verso da poesia épica, a poesia que canta os feitos de heróis) ou no quarto e oitavo verso (o decassílabo sáfico, cujo nome vem da poetisa grega Safo, que viveu no sétimo século aC). Para não ser excessivamente teórico, exemplifico:
"Che / guei... / che / gas / te... / vi / nhas / fa / ti / ga da [2-4-6-10]
e / tris / te... e / tris / te e / fa / ti / ga / do eu / vi / nha..." [2-4-8-10]
(Olavo Bilac, Nel mezzo del camin)
É possível deduzir, pelo exemplo acima, dos dois primeiros versos do soneto bilaquiano, que o decassílabo admite a alternância de ritmos em um mesmo poema. Essa alternância, porém, não existe no hendecassílabo, que possui o ritmo 2-5-8-11 do início ao fim do poema, o que o torna peculiarmente difícil de ser praticado. PEDRO ORNELLAS, porém, caprichoso e teimoso (!), não se deixa desanimar pelo pormenor técnico e há muitos anos vem praticando com inegável talento esse ritmo cantante. (Justiça seja feita: outros poetas também se dedicam ao hendecassílabo, mas é nos versos do Ornellas que a forma e o conteúdo se abraçam de modo encantador.)
POIS BEM... depois dessa longuíssima introdução, esclareço o motivo deste texto: Pedro Ornellas, com base em um soneto de nossa amiga DIVENEI BOSELI, compôs um hendecassílabo primoroso. O soneto de Divenei é um alexandrino com aquele gosto de amor que só ela consegue dar a um soneto. O soneto de Divenei, um lindo alexandrino (12 sílabas, também de técnica dificílima), chama-se TOQUE DE SILÊNCIO. Ei-lo aqui, na íntegra:

TOQUE DE SILÊNCIO

 Foi breve. Começou ao toque da alvorada,
quando este coração, herói de outra trincheira,
marchando de emoção entrou para a fileira
e logo improvisou a frágil barricada.

Foi lindo. Aconteceu da mística maneira
bem própria da paixão: manteve mascarada
a efêmera ilusão que envolve o tudo e o nada
e nem sequer doeu ver baixas na bandeira...

Foi tudo. Anoiteceu. Na última peleja,
derrota o antigo herói quem não o mereceu
e exibe o coração, sem honras, na bandeja...

Foi triste. Terminou... No peito que era meu,
aos toques do clarim, silente, não lateja:
sepulto no silêncio, o coração morreu!

Pois não é que Pedro Ornellas reparou num detalhe, que só mesmo um poeta de seu naipe seria capaz de notar? O Pedroca reparou nas frases iniciais de cada estrofe ("Foi breve", "foi lindo", "foi tudo", "foi triste") e percebeu que, juntas, formariam um verso de onze sílabas...!!! Só o Pedroca mesmo para ser tão observador... (Depois eu é que sou o "estruturalista"...) Tendo o mote em mãos, ele compôs um soneto inspirado no soneto da Divenei. Assim, acho que posso afirma que Divenei foi uma "Musa involuntária"... Ei aqui o soneto de Pedro Ornellas:

 FOI...

Foi breve... Foi lindo... Foi tudo... Foi triste...
História irreal que na areia se escreve,
esboço de lápis riscando de leve...
Foi breve, passou... mas a marca persiste.

Foi lindo... Foi tudo... Foi triste... Foi breve...
Romance que à mente em voltar sempre insiste;
Já tive, não tenho... Existiu, não existe.
Foi lindo, tal qual nenhum verso descreve!

Foi tudo... Foi triste... Foi breve... Foi lindo...
o amor que nem sei se foi mesmo ou me iludo
foi triste e no entanto alegrou minha estrada!

Foi triste... Foi breve... Foi lindo... Foi tudo...
e embora passado, já morto, já findo,
é tudo o que o sonho consegue de um nada.

De quebra, como se não bastasse por si só a dificuldade do ritmo, Pedroca ainda construiu um soneto paralelístico, repetindo os motivos no início de cada estrofe, mas alternando a ordem dos sintagmas, que se embaralham... mas não se misturam! Observe que cada elemento é colocado à frente dos demais e todos aparecem praticamente na mesma disposição original, apenas deslocados um à frente do outro. Se fizermos uma leitura, digamos "geométrica", comparando os versos horizontal e verticalmente, perceberemos uma perfeita simetria, como se estivéssemos diante de uma pintura renascentista...

BENDITA INTERTEXTUALIDADE!!! E eu, da minha parte, só posso dizer que me orgulho dos amigos que tenho, Divenei Boseli e Pedro Ornellas...! Como eu queria só uma gotinha do talento desses dois...! 

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Juraci Siqueira lança livro/cordel

Juraci Siqueira lança, pela Paka-Tatu, obra premiada no MinC, dia 01 de fevereiro.
   O cordel é o embrião de toda a trajetória de Antonio Juraci Siqueira na literatura. Foi com a leitura das narrativas impressas nos rústicos folhetos que esse poeta, trovador e cordelista da Amazônia se embrenhou nas entranhas da atividade literária. “Tudo começou, passou e permanecerá atrelado a ele, mesmo quando trabalho outro tipo de composição que, aparentemente, nada tem a ver com esse gênero”, explica. O mais recente trabalho de Juraci mergulha novamente nesse universo, é o livro/cordel “O Chapéu do Boto e O Bicho Folharal”. Publicado pela editora Paka-Tatu, ele venceu o Prêmio Mais Cultura de Literatura de Cordel 2010 – Edição Patativa do Assaré. O folheto será lançado no próximo dia 1º de fevereiro, às 19h, no Instituto de Artes do Pará.
   Autor de pelo menos 80 títulos individuais publicados entre folhetos de cordel, livros de poesia, contos, crônicas, além de outras vertentes, aos 63 anos, Juraci Siqueira é, acima de tudo, um contador de histórias. Quando garoto, era ele quem lia para os vizinhos e parentes os folhetos de cordel que o padrasto comprava no Ver-o-Peso e levava para a casa da família em Cajary, localidade no município de Afuá, no Marajó.
   “Aprendi a ler e escrever na Escola São José do Cajary, localizada às margens do Cajary, rio  paraense que empresta seu nome à localidade. Meu contato com a literatura deu-se, principalmente, através dos folhetos de cordel. O papel mais importante dessa literatura foi sua atuação como mediadora de leitura e oralidade, já que ao ler várias vezes o mesmo folheto para diversas pessoas, acabava por decorá-lo no todo ou em parte. Anos depois, como mediadora inconsciente da escrita, pois minha afinidade com a métrica e com a rima veio em decorrência dessas leituras”, avalia.
   A publicação das histórias de “O Chapéu de Boto” e “O Bicho Folharal” é resultado da aprovação no edital do Ministério da Cultura (MinC) voltado para o segmento cordelista, o Prêmio Mais Cultura de Literatura de Cordel – Edição Patativa do Assaré. As obras, reunidas agora em livro/folheto e ilustradas por Arerê Marrocos, integram os dez primeiros colocados no edital – ao todo foram 87 classificados. É uma das mais recentes vitórias desse “Filho do Boto” vencedor de outras 200 premiações literárias em âmbito local e nacional.
    Narrativas que enchem de poesia o imaginário popular da cultura brasileira, os textos foram construídos especialmente para os leitores infanto-juvenis – o que não impede a leitura do resto da família. Em “O Chapéu de Boto”, Juraci resgata nossa mais tradicional lenda da floresta, e dos rios amazônicos, e reveste de rima e aventura. No caso de “O Bicho Folharal”, ele adapta o popular conto brasileiro para o território do cordel e vai além. “Procurei evidenciar a nossa fauna levando um grande número de animais para o velório da onça”, destaca. E tudo cercado por um enredo de muita ação, mistério e humor.
   “O Chapéu de Boto” e “O Bicho Folharal” retratam com simplicidade e leveza a força o cordel da Amazônia. Mantêm as características do passado, mas não se desconectam das transformações do mundo, entre elas da própria literatura. Para os puristas o livro/cordel de Antonio Juraci Siqueira poderia insultar a tradição, ao quebrar a estética dos rústicos folhetos de até bem pouco tempo atrás. Mas a essência – a maneira como a história é contada – permanece fiel aos cordéis de antigamente. “O gênero extrapolou a forma e hoje encontramos esse tipo composição em brochuras e até em encadernação com capa dura. Os cordelistas atuais já divulgam seus trabalhos via Internet para chegar ao leitor”, pondera.
   Nas palavras de Roberto Carvalho de Faro, que assina a apresentação do livro, Juraci une em sua escrita as referências do cordel brasileiro e as particularidades da região onde nasceu. Os dois trabalhos, na opinião, representam isso. “Emergem dos nossos rios e das nossas florestas para confirmarem a verve do autor no traquejo desembaraçado da arte da poesia popular”.
Sobre o autor   Antonio Juraci Siqueira nasceu em Cajary, no município de Afuá. É formando em Filosofia pela Universidade Federal do Pará, integra várias entidades literárias e culturais e atua como professor de Filosofia, oficineiro de literatura, performista e contador de histórias. Email: juraci_siqueira@yahoo.com.br/Blog: http://blogdobotojuraci.blogspot.com/

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

O Poeta e Eu

               Tempos atrás, pesquisando no Google, à procura de mais detalhes sobre o grande poeta/trovador Durval Mendonça, de quem temos tão poucas informações, surpreendi-me com a leitura de um texto, em um blog matogrossense, em que uma musa falava de sua mágica convivência com o poeta Durval, (que um dia fora privado da visão) durante a presença do poeta nos primeiros Jogos Florais de Corumbá, em 1968 e 1972.

               O texto, porém, não tinha o nome da “musa”; só vinha escrito: 
O POETA E EU
11/11/2004
               Aquilo me intrigou. Procurei contato com o blog mas ninguém respondeu. Tempos depois o mesmo saiu do ar e, não fora eu ter salvado em arquivo o referido texto, tudo teria se perdido. Agora, no início de 2012, tive a ideia de contatar o poeta/trovador Benedito Carlos Gonçalves de Lima, de Corumbá, e perguntei-lhe se sabia quem foi a musa dos II Jogos Florais de Corumbá e seu endereço, ou email ou telefone, qualquer coisa.
               Para minha agradabilíssima surpresa, o poeta não só sabia como é amigo dela. Após isto, bastou um email e pronto: estava elucidado o “mistério”.
               Confesso que me emocionei demais com o relato da Beatriz (agora eu sei que é Beatriz) e tenho certeza que os poetas e, principalmente, os que conheceram Durval Mendonça, hão de se emocionar mais ainda.
               Boa leitura a todos!
                 JOSÉ OUVERNEY
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O POETA E EU
texto de:  Beatriz Xavier Flandoli / Corumbá/MS
 
            Tenho o privilégio de ter vivido grandes amores – amores intensos, mágicos, fantásticos. Poesia e Pessoas. Um desses amores uniu as duas coisas.
            Tinha 12 anos quando o conheci. Ele, 62. Era poeta. E cego. Isso foi em 1968. Naquela época, em minha cidade, havia cursos de declamação. Na qualidade de “aluna de poesia”, conhecia seus poemas, suas trovas, sabia que era um poeta premiado inclusive internacionalmente em países de língua portuguesa e, portanto, já o admirava entre outros que aportavam em nossa longínqua cidade durante os “Jogos Florais”.
           Os Jogos Florais eram concursos de trovas realizados com muito entusiasmo e eram um acontecimento cultural que movimentava a cidade. Aluna dedicada, pude acompanhar de perto toda a programação dos primeiros Jogos e seguir como uma sombra aquele homem magro, alto e brilhante que iluminava e encantava a todos com seu fino senso de humor. Todas as vezes que ele sentia que eu estava por perto, sorria amavelmente e perguntava: “Ah, você ainda está aqui?”. Instigava-me a dizer poesias e me deixou absolutamente encantada.
            Quatro anos depois aconteceram os segundos Jogos Florais, em que fui eleita musa, o que me deixava na confortável posição de extrair poesia e encantamento de autores que já conhecia e admirava. Iniciei, então, uma amizade com Durval Mendonça que durou uma existência. Comecei a escrever para ele e tivemos longos anos de encantamento poético por correspondência. Também tive o privilégio de ter, dali em diante, todas as fases de minha vida, que relatava a ele nas cartas, registradas com poesia.
            Primeiramente, trovas brincalhonas, num jogo de sedução platônico encantador, ao qual permitíamos nos entregar, protegidos e separados em nossos castelos a uma distância de dois mil quilômetros e cinquenta anos:
“Pelas fugas caprichosas
dos meus beijos e carinhos
mandei um buquê de rosas
à musa dos meus espinhos.”
            Ou também trovas mais líricas:
“Nos teus olhos encantados
Como dois lagos azuis
Os meus, sedentos, coitados,
Pedem promessas de luz.”
            Os presentes do poeta, obviamente, eram poéticos. Mandava, de avião, rosas e bombons. Bombons finíssimos, de que nunca pude sequer imaginar a aparência, chegavam em Corumbá totalmente derretidos pelo calor causticante. Detalhe omitido ao remetente.
            Costumávamos passar horas das tardes de sábado ao telefone. Ele no Rio, eu em Corumbá. Tenho as cartas dele, datilografadas e assinadas; tenho as poesias. Mas infelizmente não consigo me lembrar o que podíamos conversar tanto ao telefone e não tenho ideia do que poderia eu escrever naquela idade em que se tem tão pouca consistência.
            Em uma visita da família ao Rio, fez questão de nos receber em sua casa para saborear uma feijoada, providenciada pela Tiana, a fiel secretária de décadas, que lia a correspondência. Em duas das ocasiões que veio a nossa cidade, ficou hospedado em casa de meus pais e pude dispor de dias inteiros para sugar sua alma de poeta, para aprender, para sorver sua poesia e me encantar.
            Sabia brigar lindamente quando, por força e hábito da juventude, eu o abandonava temporariamente e diminuía a frequência das cartas. Assim, ao começar um namoro, deixei de escrever-lhe por um ou dois meses e recebi o seguinte telegrama:
“Na solidão, companheiro,
De uma vida quase morta
Nem mesmo o velho carteiro
Vem bater à minha porta.” 
            E assim, de trova em trova, de soneto em soneto, acompanhou-me as fases da vida. Fez poesia para meu noivado, para meu casamento, do qual foi padrinho, e me presenteou, além de poemas, com um par de cisnes de prata e cristal e uma joia de ouro maciço: uma libra esterlina incrustada em um sol. O nascimento de meu primeiro filho foi homenageado com o mais lindo álbum de bebê que já vi e o soneto “A um Pequenino Rei”:
“Chegaste à vida envolto na ternura
e na alegria de um amor bendito
veio contigo essa presença pura
que Deus te deu nos longes do infinito...” 
            Na segunda gestação, descrevi por carta as sensações de plenitude que a gravidez me conferia, ao que respondeu com um soneto encantando o ser que se formava em mim:
 “És pedaço de céu dentro de alguém,
de alguém que vive por querer-te bem
e que por ti constantemente pede...” 
            Quando minha filha nasceu, ganhou outro poema, já com seu nome: “Mariana”:
 “Teu nome é Mariana e diviniza
as horas por passar e já passadas
porque Maria, quando a terra pisa,
é para impor-ter as mãos abençoadas...” 
            e termina:
“ternura e sonho em lírica mistura,
a inspiração mais elevada e pura
que a gente pede a Deus e Deus concede” 
            Ambos foram publicados em seu livro Íntimo Universo.
            Doce Durval, quanto dele ficou em mim... Quanta construção se constituiu através de sua cultura e de sua poesia. Com ele aprendi a amar Fernando Pessoa e entender Augusto dos Anjos.
            Muitos anos se passaram desde o último sábado em que nos falamos ao telefone. Já estava cansado, e quase todas as notícias que pude dar foram de perdas. Muitos dos amigos que ele conquistara em nossa cidade, inclusive meu pai, já haviam partido e a emoção não permitiu que nos falássemos mais.
            Nunca mais liguei para aquele número e, covarde, não procurei mais notícias. Nem sei onde está agora. Se ainda habita aquela casa em Botafogo, ou se mudou de bairro, de cidade, de país, de dimensão.
            Permanece presença em minha vida. Muito aprendi com seu senso de realidade e humor. Hoje tenho consciência e me alegro pela dádiva de tê-lo conhecido.
            Querido poeta: quantas doces lembranças! Escrevo para agradecer o encantamento que sua presença provocou em minha vida e reviver com ternura sua memória e sua poesia. Escrevo para compartilhar esse afeto e oferecer aos eventuais leitores algumas das preciosidades em trova guardadas na memória para sempre.
“Andando por entre escombros                     “Esperança que arrebatas
Dos meus sonhos, os mais belos,                  prometendo o que não dás;
Vou levando sobre os ombros                       Ai de mim! Sei que me matas
As pedras dos meus castelos.”                      Mas não quero que te vás...” 
“Ao beijar a tua mão                                     “Vejo agora e vejo triste
Que o destino não me deu                             Como fui tolo no teste.
Tenho a estranha sensação                            Dei-te tudo que pediste
De estar roubando o que é meu.”                  Pelo instante que não deste.”
“Suave perfume de ajedras                           “Poças que o mar faz na areia,
Luar... teus lábios... quietude...                     Ao vê-las paro e medito
Meu Deus do céu! Quantas pedras                Nessa humildade tão cheia
No caminho da virtude.”                               Das estrelas do infinito!”
“A gente vê a poesia                                      “A vida é um pouco de pó
Mais natural e mais pura                               Igualzinho ao pó da estrada
Quando a rês, lambendo a cria                      Que o tempo, frio e sem dó,
Dá-lhe um banho de ternura.”                       Num sopro transforma em nada.”
“Naqueles tempos de antanho,                      Perdão, Senhor, se não pude
De escribas e fariseus                                               Perdoar quem me ofendeu.
Um homem do meu tamanho                                    A vida tornou-me rude.
Tinha o tamanho de Deus.”                           Perfeito és Tu e não eu!”